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O Veneno Está na Mesa Featured

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O Brasil é o primeiro consumidor mundial de agrotóxicos desde 2008, quando as vendas no setor alcaçaram mais de 7 bilhões de reais, ultrapassando os EUA, onde não se vê mais árvores, mas apenas gigantescas áreas de plantio artificial e graves problemas de ordem ambiental e climática.

Os agrotóxicos são produtos tóxicos para a agricultura introduzidos após a Segunda Guerra Mundial, principalmente nas décadas de 60 e 70, quando grandes grupos econômicos forçaram diversos países no mundo a produzirem em larga escala, através da introdução de um modelo de monocultura e da introdução de milhares de componentes químicos e sintetizados no mercado, aliados a um esquema propagandístico em larga escala que ficou conhecido como “Revolução Verde”, e que de verde não tem nada.

 

Grande parte destes produtos começaram a ser desenvolvidos a partir de armas químicas como o “Agente Laranja”, utilizado durante a Guerra do Vietnã, e fizeram parte de um programa nacional de “defensivos agrícolas”, que na verdade obrigavam os agricultores a comprar estes produtos para a liberação de créditos rurais para o plantio, paralelamente à criação de um modelo de produção baseado na monocultura extensiva e na concentração de terras, e que levou grandes massas de trabalhadores a emigrarem do campo para a cidade.

 

O termo “defensivo agrícola” não existe em outros países, pois trata-se de um veneno e jamais de um produto que “defende” as plantas. Não se trata de remédios para barata ou para insetos, mas sim venenos que embora possam matar insetos e ervas daninhas, acumulam-se nos alimentos, de modo que não adianta lavá-los para que estes químicos sejam retirados, já que estão infiltrados dentro de cada célula da verdura, da fruta, do cereal e de grande parte dos alimentos que vão para a mesa dos brasileiros.

 

Embora já existam milhares de casos de doenças generalizadas, cânceres, mal de parkinson, displasias, distúrbios mentais e diversos casos de morte comprovadamente relacionados com o uso dos agrotóxicos, é muito fácil a sua introdução em nosso país, pois o registro realizado pelo Ministério da Agricultura passa apenas por avaliações com critérios limitados, que praticamente analisam o comportamente destes produtos em animais, através de métodos estabelecidos pelas próprias agências internacionais, e que portanto são eivados de fortes interesses econômicos e comerciais, caracterizando um verdadeiro descompromisso para com a saúde pública.

 

Apenas quando surgem casos humanos e repetidos de mortes e doenças é que, através de esforços de grupos conscientes e ações judiciais contra estas moléculas no mercado, se fala de casos de revisão de registros de agrotóxicos junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, mas isto depois que o produto já circula livremente em território nacional.

 

Não são poucos os casos de apreensão também de produtos adulterados e ilegais por todo o país, e empresas multinacionais como Basf, Bayer, Syngenta, DuPont e Monsanto já têm suas fábricas instaladas no Brasil, que hoje ainda vende cerca de 60 produtos agrotóxicos proibidos em diversos países do mundo, sem nenhuma previsão de controle após o registro do produto e sua introdução no mercado.

 

A aplicação intensiva dos agroquímicos faz com que as pragas se tornem resistentes. Assim estas grandes empresas investem milhões em mais pesquisas de laboratório, enquanto se aplicam dosagens ainda maiores de veneno nas fazendas, produzindo mais doenças, mais desequilíbrio ambiental e problemas de todas as ordens, com a interferência irreversível na alteração do DNA de espécimes vegetais e animais, e bem assim a introdução de moléculas para as quais não se pode prever os efeitos futuros de sua introdução na natureza.

 

Estes produtos no passado vinham com caveiras em suas embalagens demonstrando que se tratava de um tipo de veneno. Hoje vêm com embalagens cheias de letras microscópicas com um avalanche de informações e muitas vezes apelos ecológicos completamente contrários à sua característica tóxica e maléfica. São classificados em quatro grupos: extremamente tóxicos, altamente tóxicos, medianamente tóxicos e pouco tóxicos. Enfim, todos são tóxicos e desrespeitam o meio ambiente.

 

A monocultura extensiva e baseada em agroquímicos é maléfica à natureza, produz uma massa de trabalhadores que não têm possibilidade de trabalhar a terra, causando divisões na sociedade, diminuindo a diversidade e qualidade dos produtos, bem como diminuindo a disponibilidade de vitaminas e nutrientes disponíveis no mercado, hoje abarrotado de produtos sintéticos e verduras brilhantes de tamanhos monstruosos.

 

Em território brasileiro foram utilizados, por muitos anos, o DDT e outros inseticidas organo-clorados, comprovadamente cancerígenas e maléficos. Somente em 1992 o Brasil proibiu os inseticidas à base de cloro, os quais integravam uma lista de produtos conhecidos no mundo como “os doze sujos”, que são: o DDT, os “drins”(Eldrin, Aldrin, Dieldrin), Clordane e Lindane, Heptacloro, Gama BHC, Parathion, monocótofos como Azodrin e Nuvacron, Aldicarb (Temik), Clordimeform: Gelecron, Fundal, o 2, 4, 3 (agente laranja usado na Guerra do Vietnã), o EDB, o DBCP, o Paraquat e os Fungicidas à base de mercúrio.

 

Estudos médicos revelam que estes produtos dificilmente são eliminados da natureza, a maioria deles permanecendo intactos depois de centenas e centenas de anos de sua introdução na terra e consequentemente nos ciclos biológicos. Estes venenos perpassam toda a pirâmide da cadeia alimentar, acumulando-se de forma progressiva em todos os tipos de alimento, nos animais e nas plantas, na terra e nas águas, causando rupturas irreversíveis nos ecossistemas.

 

Os agrotóxicos devem ser substituídos pelo controle biológico, que é um sistema natural de regulação do número de animais, plantas e espécimes por inimigos naturais que se alimentam destas espécimes indesejadas para a produtividade da lavoura, como é o exemplo da utilização de um inseto que come outro inseto que está comendo as folhas de uma plantação.

 

O homem pode usar estes mecanismos de controle biológico para que predadores, patógenos e parasitas exerçam um controle das presas e hospedeiros, servindo como alternativa aos produtos químicos, de modo a sair de um modelo danoso, insustentável e degradante para um modelo importante para a preservação, com uma abordagem integrada dos sistemas de produção.

 

O uso de agrotóxicos é regulado pela Lei 7802/1989, absolutamente precária e apresentando uma tendência nitidamente obscura quanto à preservação da saúde, pois não existe uma regulação eficaz para impedir a entrada de moléculas e transgênicos para aplicação na agricultura, mas sim uma adoção de conceitos falsos na própria legislação e que dão abertura para este mercado, ao considerar o agrotóxico um produto ou agente físico usado na “proteção de florestas (…) a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos”. Ora, o mesmo veneno que mata os seres vivos está matando também os homens, muitas vezes através de doenças degenerativas cujos efeitos só se percebem muitos anos depois. Como se não bastasse, em maio de 2011 a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária dentro do Congresso aprovou projeto para inserir na atual Lei sobre os Agrotóxicos, que já é uma lei antiga (1989) e ultrapassada, artigos e parágrafos versando sobre a possibilidade de produção de agrotóxicos genéricos. Como se agrotóxicos fossem remédios!

 

O certo é eliminar a utilização de agroquímicos e realizar o controle biológico, que hoje está sendo adotado por diversas famílias, fazendas e institutos de agroecologia por todo o Brasil, e virão para substituir este modelo monocultor e que não tem nenhuma lógica senão a de favorecer grandes grupos econômicos e afastar a população da sua própria terra.

 

Em entrevista com a Professora Dra. Raquel Rigotto externada pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, em que faz um discurso sobre os agrotóxicos e os alimentos orgânicos, destaca-se que a melhor forma para não se consumir alimentos contaminados por agrotóxicos é não consumi-los, e isto requer a eliminação destes produtos, muitos dos quais já foram proibidos em diversos países e continuam sendo aplicados indiscriminadamente no Brasil, agravando a cada dia a saúde pública e o meio ambiente.

 

Para a fortuna dos cidadãos brasileiros, o Brasil começou a engatinhar em relação à legislação sobre o tema, com a aprovação da Lei 10.831//2003, que cria parâmetros bastante claros para o que se considera um sistema de produção orgânica, permitindo futuramente um maior controle da sociedade sobre a produção agrícola e sobre os produtos que consumimos no mercado. É claro que é fundamental que as pessoas tentem evitar ao máximo a ingestão de alimentos contaminados, mas sem eliminar os agrotóxicos de nossa terra passamos a não ter escolhas, pois o veneno está na mesa.

Last modified on Sunday, 15 April 2012 18:26

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